Um Homem Estranho

O velho casarão de cinco andares cheirava a fantasmas de séculos recuados. Os seus ecos ainda ressoavam. Lúgubres eram todos os espaços. Supunha-se que apareciam fantasmas, daí o preço baixo da renda. Na cavalariça o Dr. Humberto, médico neurologista, colocava garrafas de vinho tinto a refrescar. Era um grande apreciador de vinhos da região. A esposa, pacífica senhora sempre pressurosa, cavalgava os degraus dois a dois sempre que a mulher-a-dias batia à porta carregada de compras do mercado.

O Dr. Humberto havia sido transferido para Chaves como voluntário na especialidade de Terapia da fala. Constava que tinha sido penalizado por razões políticas, mas ele não o dizia a ninguém. Dias após a chegada ao casarão, numa altura em que o silêncio era atordoante, a senhora pacífica ouviu bater à porta. Não seria a empregada, pois essa vinha todos os dias e batia mais suavemente. Espavorida, desceu do quinto andar onde funcionava a única casa de banho decente, com o coração a galopar-lhe na boca.

Observou pelo postigo um homem distorcido como aqueles que aparecem nos pesadelos, olhos salientes de sapo, gengivas sem dentes. Abriu a porta, mas logo o seu corpo se recolheu na sombra. Queria chamar pelo marido ausente. Encontrava- se agora à mercê daquela criatura repelente. Desfaleceu e deve ter desmaiado por segundos.

– Bom dia, dona, desculpe. Sou eu, o Isidoro, que vou passar a recolher o lixo dia sim, dia não. Estranhamente a sua voz era doce. Olhava-a com humildes pupilas. A senhora pacífica conteve a sua tensão. Ainda agarrava o peito palpitante quando se refugiou no quarto, empurrando a cabeça para debaixo dos lençóis.

Dia sim, dia não, às oito da manhã, a pacífica senhora corria até à porta de entrada, abria-a, desaparecendo imediatamente subindo pela escadaria ao longo dos esconsos das latrinas. Um dia o monstro chegou mais cedo. Estremunhada, de camisa de noite, tremia. Raios partam o homem.

Vestiu um roupão curto, deslizou escadas abaixo envergonhada daquele traje quase obsceno. Iria violá-la e matá-la de seguida. O Dr. Humberto quando chegasse com a sua maleta de médico já só veria os destroços da mulher que ela havia sido. E um silêncio fez-se de omissão. Mas, surpresa das surpresas, o marido que também chegou a essa hora, vinha da rua, de umas palestras a que tinha assistido fora de casa.

Cumprimentou o homem com um aperto de mão cúmplice, ficaram os dois a cavaquear durante bastante tempo. Foi aí que a senhora pacífica pode verificar como o “monstro” falava muito bem e na cumplicidade que havia entre ele e o marido. De uma assentada pulou os cinco andares da casa e meteu-se na cama a magicar no sucedido até que adormeceu. O marido havia de lhe contar que raio de homem era aquele.

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