Edgar, Amedeo, Amadeu e São Francisco

Acabo de chegar da Galeria Na Montra. Exposição Amedeo Amadeo Um encontro Em Paris – Cerâmicas de Edgar Teixeira. Fui o primeiro a chegar, recebido com a simpatia pela Sílvia e pelo olhar expressivo do próprio Edgar.

Minutos depois chegam o Christian acompanhado da Judite. Sinto enorme prazer de voltar a encontrar pessoas tão simpáticas. Trocamos ideias e impressões num ambiente tranquilo sob as expressões, quase reveladas, das esculturas inspiradas nas obras de Amedeo Modgliani e Amadeo de Souza Cardoso, um artista português contemporâneo do italiano.

Ainda nas conversas iniciais o Edgar expressou uma ideia que me soou muito bem. Em resposta à alguém que disse: Caxias é uma aldeia, ele emendou: sim, uma aldeia cosmopolita. De fato assim me parece. Onde existirá uma freguesia tão recheada de talentos? Sim, porque não se trata apenas do Edgar, do Christian, do Jaime, do Tavares e tantos outros talentos ocultos, pelo menos para mim. Aqui, mesmo à frente da galeria vive um escultor muito bom. Informou-me a Sílvia.

Entre copos de tinto, de boa cepa da terra, foram chegando uns poucos convidados. Não demoraram muito mas, as considerações sobre amenidades e artes la se foram desenrolando. Não houve tanta movimentação. Éramos não mais que uma meia dúzia de pessoas na mesma sintonia. Despediram-se cedo o Christian e a Judite. Tinham uma longa viagem de volta à casa lá em França e precisavam de descanso para tal.

Ficamos no gabinete da Sílvia eu e o Dado, um artista ilustrador, à conversa sobre a produção e comercialização da sua obras. Entretanto, o João, marido da Sílvia, auxiliado por ela, levou cadeiras e uma mesa para o passeio. Sentaram todos lá fora. Sugeri ao meu interlocutor que os acompanhasse-mos e assim fizemos

O grupo, ainda que pequeno dividiu-se. À minha esquerda a Sílvia conversava com a companheira do Dado. Ao lado delas o João conversava com a Alda ou Aldinha, como costumavam chamá-la. Poucos minutos antes ela contou-nos que há muito deixara de ser tratada pelo seu nome que foi substituído pelo “a mãe do Eduardo” proprietário da Manloc. Ao lado deles uma rapariga a quem não tinha sido apresentado, a minha frente o Edgar e o Dado à minha direita. Portanto, três conversas distintas e uma expectadora.

Estimulados por uma teoria levantada pelo Edgar sobre o destino, desde sempre traçado, do papel que Portugal ocupa ou ocupará, numa concertação universal e futura do planeta, derivamos por especulações espirituais que passaram pela geometria do país, os templários, a primeira missa no Brasil e por aí fora. O vinho é de fato um estimulante fantástico. Entre goles e amendoins divagamos até o fim da garrafa que estava à mesa. O mobiliário foi recolhido e despedimo-nos. Ainda que morasse a escassos metros da galeria ofereço-me para acompanhar a Alda, a mãe do Eduardo.

À porta de entrada do seu prédio, começa ela a contar-me a seguinte saga: o pai, militar e a família, alocados no oriente – não me recordo onde – encetam a viagem de volta a Portugal. Nesse percurso, ela com sete anos, passam por Díli e por Macau onde ela acompanha a mãe à capela de São Francisco Xavier.

Na sala onde se encontrava o santo ela mete o nariz na parede da urna de vidro, cuja tampa era adornada por uma miríade de pedras preciosas, para melhor observar a múmia de São Francisco Xavier. A cena ficou indelevelmente marcada na sua memória.

Tempos mais tarde, ela volta à cidade para, na mesma capela, observar novamente a urna que nunca lhe tinha saído da memória. Entretanto, desta feita, a urna está numa posição elevada fora do alcance dos narizes das crianças e dos adultos. Ela procura por algum responsável do sítio e questiona o porque dessa mudança. É então informada que a mudança deu-se em decorrência de um incidente no qual uma marquesa, de não sei de onde, havia abocanhado um dedão da múmia do pobre santo.

Tempos depois numa visita guiada a Igreja de São Francisco em Lisboa, é apresentado ao grupo um relicário onde está, segundo o guia, o tal do dedão do pé do santo. A coincidência aguça a sua curiosidade levando-a a investigação sobre a autora da proeza. Lá pelas tantas, descobre que uma pessoa do ramo de da família do seu marido, ou coisa que o valha, tinha sido casado com uma parenta qualquer da dita cuja que arrancara o dedo ao São Francisco. Há, nesse meu relato, um bocado de imprecisões e a minha incapacidade para criar o clima que nos envolvia. Não tem mal. O que importa são as imagens que conseguimos engendrar.

Isto se passou à soleira da porta entre o apagar e acender das luzes da escada que emprestavam à conversa um adorno quase teatral. Rimo-nos imenso do inusitado. Despedi-me, não sem antes lhe dizer que, de fato, o seu filho é uma joia de pessoa. Pelo caminho agradeço o universo por estes breves momentos de um convívio pleno de boa disposição a despeito destes tempos tão aziagos.

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Renato Batisteli Pinto

Licenciado em marketing pela ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo Brasil, auto didata em marketing digital. Humanista e amantes das artes. Sólida experiencia em marketing aplicado aos negócios locais

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